A Terceira Cabeça de Janus
por: Marcelo Coutinho
Desejamos ver o dia”
Friedrich Hölderlin
“Como pensar o gozo envolto nessas tralhas?”
Hilda Hilst
1. A Excritura
Uma enormidade de gestos, acúmulo verdadeiramente infinito, é posto em ação pelos corpos para que um mínimo movimento mundano possa ocorrer [1].
Em um jogo de tênis, para que a bola possa ser lançada com precisão e força necessárias, há todo um corpo que se contorce, se dobra, se tensiona e relaxa, do pé à coluna lombar, da cervical aos ombros e braços, mão e raquete [2]. Toda uma complexa ação, que mobiliza todos os músculos, tendões e ossos do corpo, e que culmina com um leve e instantâneo toque de uma ínfima porção da raquete em uma mínima porção de bola.
A bola gira no ar, cruza o espaço, também curvando-se, para quem sabe, chegar aonde todo esse esforço intencionava lançá-la.
Se pensarmos tão somente no movimento da bola, em seu ir, em sua suposta teleologia, vemos que todo o bailado corporal, toda a energia gerada pelo corpo que se contorce, toda a técnica desenvolvida ao passo de anos para que tal torção seja eficiente e pro-mova a ela um ir intencionado, estaria do “lado-de-fora” do voo da bola. Por mais extensivo que seja, por mais que corpo, força, tempo e técnica estejam de alguma forma presentes no voo, em rumo incerto, eles estão em diluição na relação de forças que se estabelecem para além de corpo, raquete e bola. E, ademais, o corpo não é bola, voo ou destino.
Um infinito e grandioso Lado-de-Fora participa da bola sem que seja bola. Sem se deixar à mostra. Invisível, voa a bola, movida por seu lado de fora. Um incognoscível incapturável, imperceptível, Lado-de-Fora.
É certo que os corpos se constituem em dança com o ambiente, com tudo o que os cerca. É certo que a experiência de ser parte de um todo, faz os corpos estabelecerem essa dicotomia, a saber, um Lado-de-Dentro para si e um Lado-de-Fora para toda alteridade. Porém, ela é ilusória.
Não há um lado de fora para o ser. Porém, ao evocar essa imagem, quero apontar para algo que se estende para além da visibilidade, para além dos entes ou do ôntico. Se estende, participa, porém não se mostra. Participa não participando, impele a fala mas, em silêncio, não se mostra naquilo que é dito. Empurra o eterno precário do dizer na direção de um não-dito contido na próxima palavra insistentemente evocada: é Isso o que estou chamando de “Lado-de-Fora” [3].
Quero permanecer por um instante nessa linha divisória. Apenas para que possa apagá-la, ou melhor, para que possa olhar de muito perto a sua desaparição. Por isso, por essa desaparição, penso ser adequado o neologismo “excritura”.
Penso que o prefixo “ex”, ao evocar uma ida para além, um movimento de dentro para fora, poderia descrever uma escrita que evoca para si, para a sua grafia, esse Lado-de-Fora. Inscrição precária de algo que excede toda visibilidade, quem sabe uma excritura conclame aquilo que vejo passear fugidio por entre as imagens trazidas por Bruno Vilela.
2. Janus
E seria de começar pela com-vocação que Bruno faz a Janus, o deus romano das passagens, dos duplos, dos nascimentos e dos morreres. Janus, o deus de todos os começos, que transforma finais em inícios, de onde surge e se estabelece o mensis Ianuário, o mês de janeiro, porta aberta para o ano inaugurado que devém.
Assim como as duas cabeças de Janus, são também duplos os reflexos nas águas ou nos espelhos. É a dobra que ocorre no instante em que adormecemos e aquela outra gravidade se anuncia. Passagem, a divindade romana Iānus incorpora em si mesmo a nomeação do “arco”, dos “portões” e das “portas”, através dos quais se estabelece a topologia dos dois lados, o de dentro e o de fora, e a possibilidade de travessia de um lado a outro [4].
São vários os chamados à Janus nesse conjunto de imagens, agora juntas nessa exposição. Do “Caderno dos Duplos” às imagens ribeirinhas de “Rio de Dentro”, feitas a partir das vivências de Bruno na Amazônia, das quais surgiram palafitas, essas casas-barco-cais, que se dobram sobre si em seus reflexos na água calma do rio.
Na duplicidade dos reflexos, eu e outro surgem como um só. Porém a água parada, túmulo de Narciso, é traiçoeira ao oferecer o delírio dessa continuidade idealizada. A doce traição dos espelhos, insuspeita para Narciso, é o fato deles oferecerem para aquilo que o confronta o seu inverso. Até nos reflexos o que se mostra é um rosto que até de si mesmo difere. Duplo nunca espelhado, duplo imperfeito que frustra a noção de “mesmo” e impõe o incontornável rastro da “diferença”. Diferença: a Terceira cabeça de Janus.
Os reflexos das imagens que compõem essa coleção ianuaria de Bruno Vilela acentuam essa descontinuidade. E indicam que esse Lado-de-Fora, quando se anuncia, surge como radical alteridade e nunca como identidade.
Todas essas imagens ianuárias possuem em seu meio uma fenda. É a fenda o que separa os dois lados reflexos e será ela quem deixará à mostra a parede, e que anunciará esse mundano como o Lado-de-Fora que sustenta ambos.
3. A Página em Branco
Para estabelecer uma excritura para esse Lado-de-Fora, faz-se necessário conquistar uma Página em Branco. E ao evocar a palavra “conquista” quero enfatizar que para isso exige esforço: talhar uma trilha, inscrever uma vereda. A vereda, diferente da estrada, não leva a um destino prévio. Os destinos anulam a errância. Obnubilam cada passo, e oferecem apenas pegadas. Nos destinos, nenhum passo nos leva ao passo seguinte.
Não nos encontramos com o mundo. Antes, nos encontramos com aquilo que o mundo já disse sobre o mundo. O instante, a presença e o abismo inaugural que ambos nos oferecem, são obliterados. Não é o abismo da presença, esse estar profundo, que nos escapa. Nós é que dele escapamos. É provável que algo em nós queira fugir desse rebento e de sua rebentação, dessa vertigem virginal do verdadeiro encontro que a presença nos convoca. Assim, para nos livrarmos desse abismo íntegro, fazemos de nossas vidas dívidas e delongas. Adiamos o encontro com o instante e a presença do mundo, essa incontornável produção de diferença, para nos refugiarmos na clausura do mesmo [5].
Conquistar uma Página em Branco é dar-se conta daquilo que Gilles Deleuze diz sobre o início da escrita. Não há página em branco diante daquele que escreverá. As páginas estão entulhadas e já não há como acrescentar mais nada. Sendo assim, “escrever será fundamentalmente apagar, suprimir”, diz Deleuze recorrendo à escrita para falar da pintura [6]. Apagar, suprimir e assim abrir uma fenda. Uma fenda por onde entre isso que, em sobressalto, cavalga invisível, puxando uma carroça de rodas de ferro.
Há a fenda física nos duplos ianuarius de Bruno Vilela, estabelecendo como visível essa terceira cabeça de Janus. Mas há também uma fenda invisível. Ela parece se abrir a partir desse azul ultramar, desse vermelho sanguíneo que tingem todo o espaço e em meio ao qual irrompe um corpo, às vezes em pose, outras vezes em carreira.
Esses monocromos parecem evocar um tipo outro de imagem. São as imagens que surgem das Câmaras Infravermelho, Câmaras Térmicas ou de Espectro Total que, justamente, capturam fenômenos térmicos e luminosos que estão fora do espectro sensorial da visão humana.
Assim, anuncia-se a chegada do Lado-de-Fora, quando um cavalo branco se lança em cavalgada, arrebentando o monocromo vermelho, esse pano-de-fundo que a tudo abraça, que tinge, sanguíneo, a enorme arquibancada, lugar reservado à plateia, que ali deve sentar-se para que possa não ver a chegada do “Ano do cavalo de Fogo”.
Mesmo quando é vermelha, como é o caso dessa imagem de Bruno Vilela, a Página em Branco faz-se necessária para acolher esse Lado-de-Fora, esse passo ainda não dado, isso longínquo que, sem aviso, apresenta-se para logo adiante, se desaparecer.
Faz-se necessário conquistar uma Página em Branco mesmo que ela seja vermelha, azul ou amarela. Pois como disse, não lidamos com o mundo. Lidamos, antes, com seus Dispositivos de Visibilidade.
Os Dispositivos de Visibilidade, juntos, formam o Sistema do Visível. O cinema e suas salas, o teatro e suas plateias, a pintura e seus chassis e molduras, o desenho e suas linhas, a literatura e suas histórias, a poesia e seus poemas, a palestra e sua oralidade formal, o discurso e sua resistência ao caos, o testemunho e sua suposta sinceridade como condição e desejo de verdade compartilhada, a arte e seu artístico. Enfim, as linguagens: estes são só alguns dos dispositivos que compõem o Sistema de Visibilidade.
Estar diante de “Escarlate”, é ter diante de si, para além de uma imagem, um dos mais clássicos Dispositivos de Visibilidade: a sala de cinema. Bruno Vilela verte em imagem essa dobra sobre si e permite-nos que nos vejamos vendo. Assim, diante do dispositivo, vejo que vejo. E vejo que só o vejo, por estar dentro, integrado ao dispositivo.
Também fazem parte do Sistema de Visibilidade as epistemologias, seus operadores cognitivos e paradigmas. O Sistema de Visibilidade em seu conjunto de dispositivos criados pelas culturas forma a condição do visível. Ele é, por essência, anteparo e barreira. Seus múltiplos dispositivos são instâncias mediadoras que predeterminam, antecipam, conduzem o que é possível de ser visto.
Por entre a escrita, o cinema, a pintura, Bruno Vilela peregrina. Manter-se em movimento entre linguagens, epistemologias e cosmovisões será certamente uma estratégia para acolher em si o Estrangeiro. E manter-se próximo do Lado-de-Fora. Nada adianta apagar uma cosmovisão para abraçar outra, pois o que se deve abraçar é o fogo.
4. O Fogo Estrangeiro
O cavalo de crinas em chamas, placidamente deixa que em seu dorso a fenda se abra. Assim, empresta sua montaria para o Lado-de-Fora. Meio de transporte, médium entre o visível e o invisível. Chama-casulo, faz-se estrangeiro de si mesmo. Por isso queima. E chama para si um outro.
Pois o fogo é um outro do calor. O fogo aprofunda o calor, escava a sua essência, até dela separar-se, e tornar-se uma outra. Longe da origem, agora nesse seu lado-de-fora, agora na produção dessa sua diferente-mesma essência, aquece o que nele se encosta, calcina o que a ele se abraça. O fogo pro-move a fuga, antecipa com esse seu calor-outro, o livramento daquilo que deseja abandonar-se. E, assim, tudo o que com ele se funde, deixa de ser.
Chama cativante, ardor que aquece o depois. Ou que ilumina o retorno a esse infinito-antes. O infinito-antes: uma espécie de gravidade inversa, que desagrega, que nega o particular, que oblitera as formas. Por isso, em brasas, para Jean Coucteau, a casa deve pegar fogo. E, entre as labaredas, de tudo o que nela se abrigou e se acumulou, deve-se salvar o fogo. Fogo pro-motor, fogo Prometeu, que conduz e oferece a antevisão do Lado-de-Fora.
[1] Uso o termo “mundano” como forma de referir-me ao que é do mundo. Aqui, o mundano não se opõe ao valoroso. Ao contrário de reforçar o binarismo “mundano x valoroso”, “mundano x sagrado”, refiro-me ao mundano como forma de reacender esse vital que há na palavra, como forma de reencantar o fundamento imanente da vida, restaurando seu sentido profundo nela mesma, sem recorrer à uma Verdade ou a um Bem para além dela.
[2] Na tarde do dia 12 de março de 2026, visitei Bruno Vilela em sua casa-atelier, nos ares do bairro das Graças, Recife, PE. Lá, Bruno, praticante de tênis junto com seu filho, falava sobre o quanto de técnica corporal faz-se necessário para que o encontro entre bola e raquete se dê de forma eficiente. Falávamos desse encontro entre raquete bola e eu, embriagado pela bela imagem esportiva, corporal, relacionava a fugacidade desse ínfimo instante em que bola e raquete se encontram - fato efêmero, fugaz, bruxuleante - com a eternidade.
[3] “Isso” é o conceito que criei em meu doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para descrever essa força irruptiva, pagã e revolvente, presente não só na obra de arte, porém em tudo que é vivo. “Isso” e força que mantem os batismos em movimento, criando nomeações para o fenômeno vivo que nos atravessa que se esvaem assim que estabelecidos. (https://lume.ufrgs.br/handle/10183/180990)
[4] TAYLOR, Rabun. The Moral Mirror of Roman Art. Cambridge University Press, 2008.
[5] Este afastamento do “outro” ou do mundo fica claro quando nos reportamos por exemplo à Monique Augras, psicóloga e antropóloga. Augras acusa a temeridade que são os psicodiagnósticos próprios da psicologia clínica. Previamente estabelecidos, os psicodiagnósticos se antecipam ao encontro com o indivíduo. Antes do indivíduo e de sua singularidade, o psicólogo encontra-se com os esquemas, as definições, os quadros clássicos de patologias previamente estabelecidos. Um retorno à Fenomenologia seria para Augras, urgente, exatamente por ela buscar essa “página em branco”, este “sursis”, este “abeas corpus prévio” para o mundo. A suspensão, a “parentização” daquilo que o mundo fala sobre o mundo, a chamada “redução eidética” husserliana, preconiza a dedicação ao Ser verdadeiro das coisas quando ocorrem no interior de minha consciência. Seria uma “operação pela qual o espírito suspende a validade da tese natural da existência para estudar o seu sentido no pensamento que a constituiu” (AUGRAS, Monique. O Ser da Compreensão. Petrópolis: Ed. Vozes, p.23. 2011.)
[6] Deleuze, Gilles. Sobre a Pintura. São Paulo: n-1 Edições, p.60. 2025.
*Marcelo Coutinho é artista e Professor Doutor Associado IV do Departamento de Artes Visuais da UFPB e do Programa Interinstitucional de Pós-graduação em Artes Visuais da UFPB e UFPE.