A consciência observando o observador observar
A consciência observando o observador observar
Sua fuga é o seu mistério,
e o seu caminho a chave de todos os abismos.
Mas ela não sabe nem do seu enigma,
nem de todos os segredos, porque conhece tudo,
e conhecer é não existir.
Fernando Pessoa, O caminho da Serpente
A linguagem do inconsciente, do sonho, é um teatro vazio. No palco vemos um deserto coberto pela luz do sol ao meio dia. Uma voz grave anuncia: “É o sono azul de Vishnu”. Do vazio e do silêncio, Brahma, o Absoluto, surge com o livro do conhecimento em cima da flor de lótus, que precisa da escuridão e da lama do lago para caminhar em busca da luz do Sol. É integrando luz e sombra que a Serpente transita entre os mundos. O abraço na sombra junguiana só é possível graças à Anima. A serpente é, ao mesmo tempo, alma (quando anda sobre seu ventre) e espírito (quando é Ouroboros), mas precisa ocupar esse palco abandonado, essa tela em branco. A noiva precisa de seu vestido. Essa personagem que faz a ligação entre os mundos tem vários nomes:
Exu, Hermes, a Pitonisa de Delfos e a Bruxa. “Aquela escarlate, aquela que tem escamas nos pés”[1].
Ananta, a memória arquetípica, é o vestígio de uma civilização antiga nesse novo espetáculo sem público do Samsara. A serpente de mil cabeças onde Vishnu dorme.
O infinito e inominável eterno azul. A cobra é ao mesmo tempo ser e não ser.
A física ocidental e dezenas de tradições filosóficas ancestrais, das orientais às ameríndias, apontam para a noção de que o vazio — o caos — é, na verdade, a fonte de todas as possibilidades. O princípio da incerteza de Heisenberg, da criação e aniquilação contínua de pares de partículas e antipartículas, é análogo à descrição de como Shiva é, ao mesmo tempo, o Deus destruidor e transformador. Mesmo no vácuo, há uma quantidade residual de pulsão de vida. É nesse estado efervescente que tudo pode potencialmente emergir. Vishnu é a sentinela dos tempos. Seu sono é também vigília.
A fita K7 abre um portal para a toca do coelho de Alice. “Fazer as pazes com o tempo” é o objetivo da meditação. O que está em cima é como o que está embaixo.[2] É aquela micro pausa entre uma respiração e outra.
Em 2005, a edição de 125 anos da revista Science[3] apresentou um dossiê a partir
das 125 maiores questões da ciência. Dentre estas, uma das perguntas foi: “What is the biological basis of consciousness?” [Qual é a base biológica da consciência?]
“Durante séculos, debater a natureza da consciência foi competência exclusiva dos filósofos. Mas, se a recente enxurrada de livros sobre o tema serve de indicação, uma mudança ocorreu: os cientistas estão entrando no jogo.”[4]
Até então “entrar no jogo” era mal visto entre os físicos. Se Descartes dizia que “corpo e mente são feitos de substâncias completamente diferentes”, por que não integrar a arquitetura mística à engenharia científica? A dialética parece um caminho filosófico razoável aqui.
Sempre me chamou a atenção o fato de que alguns freudianos e lacanianos ortodoxos, precisassem negar Jung para afirmar seu posicionamento. Como se a psicologia analítica fosse resumida a um misticismo sem base científica. Sem uma base sólida, técnica, não existe arte. A intuição e a inspiração são fenômenos dessa “consciência mais profunda” que precisam de um bom guindaste/técnica para trazer tamanho peso das profundezas. O artista e o filósofo me parecem mais abertos a usar a engenharia e a caixa de ferramentas por trás do processo, com o objetivo final da obra.
Na segunda temporada de Twin Peaks, na cena final do último capítulo, David Lynch nos dá uma aula do que é integração. Quando Dale Cooper bate a cabeça no espelho e vê BOB do outro lado — que logo toma sua alma —, Lynch nos mostra que o arquétipo do herói, o detetive, é apenas o outro lado da moeda de seu antagonista, o serial killer. Cooper, o alter ego de Lynch, assim como seu autor, é um entusiasta da meditação. Está sempre entre a epifania da natureza e o prazer ingênuo da próxima xícara de café. Mas, sem a melancolia do amor perdido no passado, e a busca pelo entendimento do Mal, revelado no sonho, a jornada não faria sentido. Pois “os próprios obstáculos são o clarim para seu avanço.” [5]
Outro exemplo de integração é quando o cineasta Robert Eggers transforma O farol[6] em uma metáfora para a alma humana e o mar para o espírito. O farol é a coluna vertebral: liga o chakra base (Muladhara) ao chakra coronário (Sahasrara). É o thriller da poética do espaço.[7] Cavando na base Thomas Wake desenterra o álcool que o faz animal. Subindo em direção à lente Fresnel o faroleiro é queimado pelo absoluto.
A luz, que é ao mesmo tempo interna, ilumina, longe, o deserto mar azul, de onde Vishnu Matsya surge em forma de Sereia.
“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”,[8] palavra que vem do grego διάβολος (diábolos), aquele que divide. Estamos presos entre o ser e ou não ser de Hamlet. Entre o peixe (a alma) e o cardume (o espírito). O Diabo oferece a Jesus a “divisão, a queda, no lugar do sono azul infinito[9]”.
Jiddu Krishnamurti diz que: “A experiência implica um experimentador, e esse experimentador observador é o passado, o conhecido. Portanto, o que é experimentado não é sagrado. O sagrado só pode acontecer quando
o experimentador não existe”. E conhecer é não existir.[10]
Sob o mesmo ponto de vista a psicanalista Ticiana Porto fala da “consciência observando o observador observar”. “É como se ele psicografasse o próprio inconsciente[11]”.
Igualmente, o espectador, você leitor, é a consciência. Aqui você deixa de existir e se torna esse texto. Na sala de cinema você é o filme. Diante de uma tela você se torna a pintura. Você está observando o filme, o texto e a pintura. O observador é meu narrador, que observa (observar) sua própria jornada.
“Enfim, a separação. Luz é fé, Lúcifer[12]”.
Bruno Vilela
“A alegria de ler é reflexo da alegria de escrever, como se o leitor fosse o fantasma do escritor”.[13]
[1] O Ano da Serpente (2025), Bruno Vilela.
[2] O Caibalion, escrito sob o pseudônimo “Os Três Iniciados”, apresenta os princípios do Hermetismo.
[4] “For centuries, debating the nature of consciousness was the exclusive purview of philosophers. But if the recent torrent of books on the topic is any indication, a shift has taken place: Scientists are getting into the game.”
[5] O caminho da Serpente (1934), Fernando Pessoa.
[6] O farol (The lighthouse) (2019).
[7] A poética do espaço (1958), Gaston Bachelard.
[8] Bíblia sagrada, Mateus 4:1.
[9] O Ano da Serpente (2025), Bruno Vilela.
[10] O caminho da Serpente (1934), Fernando Pessoa.
[11] O Ano da Serpente (2025), Bruno Vilela.
[12] O Ano da Serpente (2025), Bruno Vilela.
[13] A poética do espaço (1958), Gaston Bachelard.