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A fotografia já é tão velha quanto a pintura.

AB: Há limites para a fotografia?
 
BV: Há limites para todas as formas de arte. Limites geográficos, políticos, financeiros. Muitas vezes o artista quer fotografar uma região, mas ela está fechada por uma guerra civil. Ou um jovem fotografo sem capital não pode fotografar aquela população do outro lado do Oceano por falta de financiamento. Mas, sem dúvida, o maior limite para a fotografia (fotografo) é o da prisão, emparedamento, paralisação na fotografia clássica documental. Criar em fotografia, no sentido de construção artística, deixar de ser um fotografo e se tornar um Artista é o maior limite. Poucos conseguem quebrar esse limite e passar para o “outro lado”. Na maioria das vezes passando por cima de limites técnicos, numa atitude punk, o desejo vence a falta de equipamento e conhecimento. O verdadeiro artista vence passa por cima da falta de conhecimento de certas especificidades da fotografia, ótica, equipamento, luz, e cria Arte com A maiúsculo. Exemplos são Rodrigo Braga, Jeff Wall, Rosangela Rennó e muitos outros.
As vezes com sua câmera simples e lente única 50mm conseguem ir muito mais longe que super técnicos com suas enormes e pesadas malas de kits de lentes.
 
AB: A sua fotografia é uma fabulação da realidade ou a insistência do vigor em procurar respostas?

BV: Nem um nem outro. É um namoro com o cinema, um frame de um filme que nunca existiu. Como uma frase que escutei um dia: “É o caso do filho que nasce antes do pai.” Para mim o cinema é o pai, e a minha fotografia, o filho que veio antes. Espero que isso tudo me ajude um dia no desejo de fazer cinema. Será?
 
AB: Chegamos a algum lugar através das imagens fotográficas?

BV: Podemos chegar de diversas maneiras a diversos lugares. Olhando uma foto antiga de um parente que se foi, chegamos na voz dele, nas suas palavras. Vendo uma paisagem do mar sentimos o gosto da água salgada e o sol. Mas, se nunca fomos lá, chegamos num estado de desejo, ou melancolia, pela distância. Mas esse chegar pode ser potencializado e o desejo vira realidade. Isso acontece muito comigo nas fotografias de paisagens exuberantes. Um dia, vi uma fotografia da Cachoeira da Fumacinha, na Chapada Diamantina. Quando vi aquela foto eu sabia que iria aquele lugar, e fui! Foi um chamado. A fotografia é um chamado. Essa cachoeira é locação da fotografia Iansã de 2010.

AB: Por que precisamos da fotografia? Ou melhor, precisamos da fotografia nas nossas vidas?

BV: A fotografia foi tão feita e refeita, o meio digital popularizou essa mídia de tal forma, com as câmeras em celulares e portáteis de qualidade cada vez melhor, que a fotografia já é tão velha quanto a pintura. Dentro da carteira de cada um tem uma foto ao menos. Uma música fantástica do Gênio Paulo Vanzolini conta um caso desse sentimento de fotografia na carteira:

"Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida
Eu já devia ter rasgado
E não podia
Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
vinte e cinco
Francamente foi de graça"

A fotografia se confunde com a família, a mulher amada, os filhos queridos e a paisagem desejada. É metáfora dos nossos sentimentos. 
 
AB: Como (e quando) a fotografia entrou na sua vida?
 
BV: A fotografia surgiu de uma viagem com minha família a Argentina quando eu tinha 10 anos. Ganhei uma câmera 35 mm portátil. Foi amor a primeira vista. Lembro do cheiro, barulho e textura dela. Depois tive uma subaquática que me acompanhava nas aventuras de mergulho quando Porto de Galinhas ainda era uma vila de pescadores. Mas a pintura e o desenho não deixaram muito espaço para fotografia. Um dia, a necessidade de registrar as obras com qualidade, me fez comprar uma reflex 35 mm. Foi inevitável fotografar fora do ateliê. Fotografia para pintor é remédio. É a possibilidade de sair do cheiro de tinta e terebintina e viajar o mundo atrás de imagens para pintar. É um ciclo.


 
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