Os galhos, mesmo quando opostos,
concordam na cor das flores que brotam
                                                                                                                                                                                                     


Inúmeras são as culturas que adoram deuses desconhecidos, espécies de não-ser anônimos e imensuráveis. A nossa cultura mais recente, porém, parece tender a ser pouco afeita a espiritualismos oriundos de mundos alheios ao nosso, e vem, por sua vez, instituindo deuses que estão longe de ser anônimos ou diferentes de nós, mas que são pessoas face às quais comportamo-nos como se estivéssemos frente a uma representação divina (ou, quem sabe, a divindade em si).
Bruno Vilela, a um só tempo apologista e opositor a esse comportamento – como uma falena que se permite atrair pela luz, mesmo sabendo que queimar-se-ão suas asas –, sai em busca de deusas entre musas do cinema, teatro, dança e música e as utiliza como representação de seu ideal de mulher, descontextualizando-as e, então, preenchendo suas identidades com sutis símbolos que terminam por nos inspirar qualidades que julgamos universais, como beleza, coragem, bondade e amor.

Suas alvas deusas carregam, no branco das peles que as separam dos mundos, a cor do absoluto e das sínteses, da teofania (manifestação de Deus), a cor que, segundo Kandinsky, produz sobre nossas almas “o mesmo efeito do silêncio absoluto”. Também nesses rostos o artista revela ouro, elemento que, em várias culturas, devido à sua condição de metal perfeito, é utilizado como a carne dos deuses.

Como se pode perceber, muito além da influência temática que a arte japonesa exerce em Bruno Vilela – advinda do convívio com o seu mestre Shunishi Yamada –, levando-o a produzir imagens de seus ideais de mulher (Bijinga), também os preceitos da pintura nipônica se fazem presentes na recente produção do artista, que suspendeu seus virtuosos barroquismos por uma simplicidade de traço e cor que condiz com sua atual procura por equilíbrio e essência. Assim, por trás de suas etéreas mulheres, percebe-se somente a fluidez das cores primárias que se fundem e o peso do preto que, opondo-se vigorosamente ao branco das deusas, acaba por torná-las mais fortes, como se destinadas a vencer a solidão e a melancolia e encarar o luto carente de esperança que a elas se impõe, como as orquídeas que discretamente as acompanham – flores da primavera e, portanto, símbolos da fecundação. 

Não sei ao certo se Bruno se contenta em admirar e pintar suas deusas ou se sente ainda necessidade de ir além dessas representações, pois me parece que ele, como elas, sabe da condição eterna e incomensurável que sobre elas recai – (...) “E por perder-me é que vão me lembrando, / por desfolhar-me é que não tenho fim” 
(4º Motivo da Rosa, Cecília Meireles).

Clarissa Diniz

 

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