O Céu do Céu

O céu se escreve, ou ainda: superando a linguagem,
 a escrita é a linguagem pura dos céus.

Mallarmé

No século XX, a relação entre escritura e pintura se torna mais potente a partir das pesquisas desenvolvidas por Mallarmé; a legitimação desse processo com Un Coup de dés,tanto na literatura quanto nas artes visuais, é fundamentalpara a interseção dessas duas linguagens. As práticas se incorporam, escrever e pintar habitam a mesma natureza poética, pintores incluem a letra ao quadro, seja através da própria palavra ou de grafismos. O gesto criativo se localiza no processo de evocação, que são análogos tanto para o pintor quanto para o poeta. Essa movimentação é regida por dois processos: da imagem à letra e da letra à imagem, num gestual que esboça tanto a caligrafia quanto a figuração.

A contemporaneidade se legitima por essa hibridez dos gêneros, os diálogos se localizam na transversalidade que as linguagens buscam. A pintura, tradicionalmente relacionada à mimese e ao campo do real, re-escreve a sua contextualização e utiliza diversas ferramentas para re-ordenar sua vitalidade dentro das perspectivas temporais, tecnológicas, corporais e das transposições intersemióticas.

A contaminação da pintura contemporânea revela-se através da apropriação de signos, dos processos metalingüísticos e principalmente da relação entre Vida x Arte. Essa potência produtora de imagens, que extrai de si o gesto criador, gera e remete a aproximações entre as artes: a exposição O Céu do Céu de Bruno Vilela utiliza como eixo inicial essa proposição, o título surge de um trecho do poema “Eu Carrego Você Comigo” do poeta americano e.e.cummigs (1894 – 1962). Essa ligação entre a poesia e a série de pinturas revela uma sutil correspondência  na natureza da imagem do artista. 
O céu sempre foi suporte para diversas proposições artísticas, desde as questões religiosas, mitológicas, astrológicas, etc – que permeiam todo um vocabulário presente em nosso imaginário – ou como metáforas, que sofisticam o produto poético. As 18 telas que compõem a exposição utilizam a alegoria do ‘’vôo/avião’’ como um dos eixos narrativos para tratar de questões como vida x morte, analógico x digital, orgânico x mecânico, assistido por uma latência sensual e erótica que reverbera na produção do artista.

Dentro desse repertório, o ‘’avião’’ aparece como rito de passagem, de mudança, transformação, e se apropria de outras relações estabelecidas como o ‘’bestiário’’ particular – os animais reverberam o animal homem – e os safety cards. Esses cartões de instruções de salvamento presentes nos aviões, apropriados em fragmentos nas telas, conjugam proposições bastante presentes na sociedade contemporânea. Agora transportados para arte, ironizam a morte, a vida e principalmente o desejo de nunca usá-los.

O céu de Bruno Vilela, carregado de sagrado e profano, de um feminino repleto de erotismo, evoca uma mitologia que transita entre o desejo e o amor e discute através de uma escritura de signos a pintura contemporânea, repleta de apropriações que conjugam um gestual de cores vivas, processos orgânicos e poéticas  do simbólico nos exercícios da arte.


Bitu Cassundé