Por Galciane Neves

Nesta conversa, o artista Bruno Vilela fala das transformações e das matérias primas que estão para além do universo artístico e que engendram seus processos. A cultura Zen, as religiões africanas, o esporte são vistos como desafios, como atravessamentos, que recolhidos arquivos particulares, atuam em suas telas.

GN: Numa breve visita ao seu percurso de produção artística, é possível perceber que você recolhe referências das mais variadas fontes, disciplinas, temas e mesmo visualidades: religião, álbuns de família, filosofia oriental, contos, filmes. O que guia suas buscas? Como se norteiam seus interesses e suas intencionalidades, diante do desejo de transformar essas matérias, aquilo que perpassa o seu olhar?

BV: Desde sempre, arte e vida para mim sempre foram a mesma coisa. Não há transformação na arte se não há transformação na vida. Quando resolvo começar uma nova atividade, penetro nesse universo com toda paixão. Sei que em algum tempo isso vai me mudar e essa mudança é a motivação pela qual começo uma nova série. Essas coisas estão sempre fora do mundo das artes plásticas, não costumo viver em função do circuito, exposições, livros, entrevistas, etc. Claro que me alimento da arte contemporânea e muito, sobretudo no contato com meus amigos artistas, mas meu alimento vem, sobretudo, da vida, das trilhas na Chapada Diamantina, do nascimento do meu filho, de viagens com minha filha mais velha, tocar bateria, estudos sobre Umbanda, etc. Há um ano treino triathlon, entrei mesmo de cabeça no esporte, já fiz até uma prova. Não sei o que o esporte vai transformar em mim, ainda não tenho distanciamento temporal para isso, mas sei que em algum tempo isso vai me levar para outro estado mental bem diferente. Essa nova maneira de ver as coisas vai me trazer novos interesses visuais, novas vontades de mancha na pintura e no desenho, novas cores. É nessa transformação, na vida, na motivação de viver que está toda a minha busca. As pinturas e desenhos são apenas reflexo disso tudo.

GN: Sua produção amplia-se para além da estabilidade das categorias, da uniformidade dos suportes e linguagens. Sua linguagem vaga por um terreno instável. A saber: nas telas de “Ouroborus”, os objetos e os lugares parecem pertencer a atmosferas diferentes e você estabelece essa fricção. Nos retratos, os personagens são ambientados com símbolos que não necessariamente condizem com suas personalidades. Em algumas de suas telas, você utiliza óleo e carvão. Enfim, parece ser mesmo essa convivência de distintos que pontua a sua poética e até a forma como você equaciona, ou melhor, não apazigua essas naturezas distintas. O que lhe interessa nessas fricções e nesses embates?

BV: O que me interessa é o mesmo que na vida: a mudança. Água parada apodrece. Muitos vivem como se não fossem morrer, estabelecem um estilo e ali seguem até o fim. Gosto da dúvida, da adrenalina do novo, a paixão pelo desconhecido. Gosto de sentir medo, de me colocar à prova. A vida e a arte são uma só coisa, mas a vida é mais importante do que o que esperam de você. O artista é forçado a decidir ainda muito jovem seu caminho. Quando um tipo de estética, cor, material ou conceito dão certo, isso vira uma jaula para o criador, que muitas vezes criou esse estilo por total paixão, medo, adrenalina de descobrir algo grande. E a motivação que era o sangue nas veias, a vida aqui e agora, o medo e a paixão, experimentação, se transforma na motivação de se “manter” um status. Um medo de não “dar mais certo”. Daí a arte, ou as expectativas do mundo da arte, passa uma pá de cal na vida.

GN: Gestos familiares, momentos íntimos registrados, rastros do cotidiano estão transformados e tornam-se momentos de clímax, cenas quase amedrontadoras, na série de telas “Dia de festa é véspera de dia de luto”. Ou seja, essas imagens tornam-se distantes das memórias a que estavam ligadas e se conectam a flagrantes aterrorizantes. Como foram escolhidas as fotos que você utilizou? Estes gestos reconstituídos apontam para onde? A uma vontade de provar a “fragilidade” da imagem?

BV: Essas imagens são pesadelos reais. Traumas de família. Quando se vê uma foto de família depois de 30 anos, aquilo vira sonho. Meu desejo é um dia entrar dentro dos meus sonhos e pesadelos, com uma câmera na mão. Quando vi essas fotos perdidas nas gavetas da minha mãe, percebi que quem as produziu fez isso para mim. Pesadelos e sonhos de aventura são como filmes, mitologia pessoal. Estudei muito anatomia humana e pintura, as fotos de família são um material muito rico para essas técnicas. Não tenho vontade de provar nada. Minha pintura acontece no gesto, no momento, na construção. O resultado é fruto do que sinto quando estou na frente da tela.

GN: A maioria de suas telas apresentam-se em grande formato. Dessa maneira, cada gesto seu nas composições torna-se muito evidente. Como você explicaria o motivo dessa escolha?

BV: Gosto do que fala Luiz Zerbini sobre os grande formatos: uma tela de grande dimensão traz você para o universo dela. O espectador está em uma proporção quase de 1 para 1 da imagem. Como no cinema, é preciso identificação. Um livro, filme ou disco incrível é aquela obra, que como uma pintura, faz você se identificar com aquele personagem, paisagem, atmosfera. Isso tudo se dá no contraste e na verdade. Sendo assim, os grandes formatos para desenho e pintura são fundamentais para minhas obras, quero que o espectador sinta o medo dentro do pesadelo na hora. Pessoas reais em tamanho real com pele de gelo brilhando num fundo azul.

GN: Em uma de nossas conversas, você disse acreditar que “Arte é contraste”. Gostaria que você comentasse sobre isso.

BV: Arte é contraste porque é preciso contraste para se perceber os mistérios da vida. Se da caverna vemos uma sombra do mundo lá fora, com a  arte tentamos dar contraste, forma, ao que está lá fora. O contraste é trazer uma lembrança vaga de um sonho, uma imagem nebulosa de um mito, e transformar aquilo em real na sua frente. Por contraste sentimos a vida, por isso repito: água parada apodrece. É essencial que o artista se coloque em conflito, se jogar no medo, testar seus limites, não se render a maneirismos, mercado, ego ou disputa por poder e fama com os colegas de profissão. Contraste é Zen budismo, é o aqui e agora. Nem passado nem futuro.