AN - Seu trabalho é marcado por reminiscências ancestrais. Por que você manteve-se fiel a este repertório? Ele reflete uma busca pessoal e espiritual também?

BV - Quando estou pintando, ou desenhando, entro numa espécie de auto-transe que me leva a memórias de infância, sensações extracorpóreas, sentimentos guardados das minhas experiências na natureza, especialmente trilhas na chapada diamantina e seções de surf e mergulho no mar. Esses sentimentos aflorados me levam para esses mundos novamente, chegando “lá” registro tudo que vejo, escuto, sinto na pintura, desenho. Esse registro é a obra. Sem esse processo o trabalho é estéril, não faz sentido para mim. Pintar e desenhar me leva diretamente para esses mundos, pela prática. É uma espécie de meditação. Em muitos momentos tenho muito medo pois me deparo com mundos realmente assustadores. Retornando do transe encontro a obra em andamento, por isso a importância de manter a pintura, ou desenho, num bom caminho. Dia a dia preciso voltar para o mesmo “lugar” que estava e começar a explorar ele novamente. No caso da fotografia é diferente, a viagem é feita antes, na mente. Depois de criar o universo do trabalho na minha cabeça, vou para a locação e executo a obra, mesmo que aqui e ali os acidentes sejam incorporados nas fotos. Fotografar é a oportunidade de criar, como no cinema, figurino, maquiagem, escolher uma atriz, locação, planos, luz, etc. Criar um frame de filme no lugar exato da natureza que me inspira na pintura. Em um trabalho como o livro Voo cego, o ato de apagar a luz e ver as constelações na escuridão também leva o expectador a outro mundo paralelo, mas agora feito racionalmente através de um processo, artifício, gráfico e conceitual. Tudo isso para mim é religar, religação, yoga, a volta a base maior do homem.

AN - Gostaria de saber se você acredita em identidade cultural. Se, como brasileiro em tempos pós-modernos, ainda é possível fazer arte com raiz?

BV - Os mitos que uso em meu trabalho são universais, na minha pesquisa não interessa o aspecto regional, nunca interessou. Claro que a possibilidade de estudar a Umbanda tão a fundo é algo que só é possível no Brasil, mas, muitos outros mitos e referencias são universais. O que me interessa é o arquétipo, o universal, a fronteira entre arte, ciência e religião. Umbanda é uma colagem de todas as religiões, todos os símbolos delas. Como Rauchemberg. Costumo dizer que meu trabalho é umbando-Rauchemberguiano. Hoje moro no Brasil/Recife, por conveniência e escolha, mas os “lugares” que vou independem de onde moro. Sair do ateliê depois de uma seção de 10 horas de pintura é um choque mesmo, do mundo, não do Brasil.

Matéria na revista: https://www.artnexus.com/Notice_View.aspx?DocumentID=24685