ANIMATTACK

Animattack reúne trabalhos realizados por Bruno Vilela ao longo de anos diversos que se avizinham, contudo, de vários modos, constituindo coleção aberta de buscas encadeadas. Todos eles, menos um, são devedores de mesma técnica: criação de imagens com pastel seco sobre papel que reproduzem, com poucas alterações, partes centrais de cenas fotografadas em um passado incerto. Imagens que têm porções apagadas logo após serem feitas, de modo a borrar traços antes visíveis e as tornar parcialmente opacas. Mesmo aquele que é única exceção nesse grupo – uma tela pintada a óleo – partilha com os demais a vontade de criar dúvidas sobre o que visualmente descreve. Tal coesão se torna também patente nos tons escuros e melancólicos com que o artista elabora cada um dos trabalhos, embora seja principalmente o assunto que recorre em quase todos eles que parece torná-los fragmentos de uma investigação sem fim necessariamente certo. Assunto que não se deixa reduzir à descrição normativa da fala ou da escrita, ecoando, no campo do significado, o desmanche de formas definidas operado em cada superfície desenhada ou pintada (pouca diferença a distinção entre meios aqui faz). Assunto que, a despeito disso, alcança e afeta aqueles que se expõem às imagens que Bruno Vilela cria, forçando sua tradução quebrada em palavras que nunca são suficientes ou adequadas.

Para acercar-se, tentativamente, dos sentidos que Animattack esboça, inexiste outro caminho que não o do sobressalto com o tema que aproxima os trabalhos uns dos demais. Se parece evidente que cada desenho ou pintura retrata corpos humanos em planos de corte variados – do corpo inteiro ao retrato –, a ausência de partes dos rostos promove a anulação do índice mais aceito de humanidade. Ademais, ao terem bocas, narizes e por vezes orelhas apagadas, as figuras, quase sempre sozinhas, são destituídas daquilo que as singularizaria frente a quaisquer outras. O que usualmente resta desse desmanche seletivo de faces, além dos contornos mal definidos dos rostos que os corpos carregam, são quase somente olhos: por vezes atentos, outras tristes, talvez até espantados. Em um dos trabalhos, a abstração de tudo mais em detrimento deles é levada ao limite, e a figura inteira que se presume ali presente é reduzida a somente um par de olhos mergulhado em denso e mudo campo de cor azul. Em outro, a afirmação da centralidade da visão nos rostos é feita por meio da adição de um terceiro olho situado acima dos demais. E se são várias as interpretações cabíveis para a representação dessa extroversão da faculdade de enxergar, não se encontra, nas construções de Bruno Vilela, afirmação de conhecimento qualquer que já exista para justificá-la, mesmo que seja possível rastrear conceitos que informam a intenção do artista. Na condição de imagens inventadas que se bastam, elas apenas interrogam o que intuitivamente se assumiria, em outro contexto qualquer, como algo certo e dado.

Há figuras, porém, que nem mesmo olhos exibem, sugerindo de novo, embora de outro modo, uma existência sem face. São apagamentos de funções humanas que evocam menos agressões ou acidentes extremos do que uma existência de natureza distinta. Imagens que remetem, com ainda mais força que outros trabalhos que integram o conjunto, à supressão absoluta dos traços com os quais se identifica alguém visualmente. Figuras sem rosto que se movimentam às cegas e que são, paradoxalmente, as únicas a serem retratadas em contato com outras. Interação que não necessariamente implica partilha de alguma coisa, como atesta a sugestão velada de gestos violentos presente nessas cenas de encontros. São figuras retratadas talvez em fuga das formas reguladas de estar no mundo, desfazendo-se, nesse percurso, do que é excesso material nos corpos e tornando-se algo ainda não conhecido, processo sem fim certo que Bruno Vilela nomeia de Animattack. Processo que não tem sequer temporalidade definida, posto que aquilo que se vislumbra como devir já está por vezes inscrito no vivido, como parece aludir o trabalho O Ancestral. Nele, vê-se uma figura entre homem e animal – ou quiçá híbrido de gente e espírito – que dá as costas a este mundo do lado de cá e adentra uma floresta escura. Faz recordar que esses são trabalhos que demandam, de quem os vê, atentar para o que está além do que eles podem jamais exibir.

Moacir dos Anjos