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Textos Bárbaros

O grafite nasce da necessidade ancestral do homem de marcar sua passagem pela terra. Das cavernas de Lascaux aos muros das nossas cidades as motivações continuam as mesmas: a demarcação de um território e a vontade do homem de mostrar sua passagem por essa vida. Uma transgressão, “é umterrorismo visual”, segundo a filósofa Márcia Tiburi. A primeira vista parecem apenas rabiscos para olhos destreinados mas, toda a manifestação artística feita com a palavra recebe o nome de literatura, então temos nos muros a literatura bárbara. Bárbaro significa pessoa não-civilizada. Para os gregos quem não era grego era um bárbaro. Quem pichadeixa claro que não faz parte daquela estética grega de beleza da fachada branca. É um estrangeiro em sua própria cidade. Com outros códigos, dialetos e grafia.
 
O grafite em sua gênese ocupou esse espaço transgressor de denuncia política.Hoje é aceito e “domesticado” pela sociedade. A arte que surgiu no Brasil nos meados dos anos 60 para denunciar a ditadura militar é a mesma feitahoje para afastar os pichadores que fazem uso da tinta para gritar sua voz nos muros da sociedade, livros em branco prontos para serem escritos.
 
Minha experiência de desenho e pintura migrou para fábulas urbanas, mitos ordinários das coisas comuns das ruas. Trago a expressão de anônimos pichadores, design de objetos públicos e sinalização de rua, para minha própria linguagem nos materiais clássicos das artes plásticas como o papel, pastel e a pintura a óleo. Eu que já fui grafiteiro nos anos 90 e designer nos anos 2000, resgato essa memória subvertendo esses meios para o campo das artes dentro de uma galeria. Minha intenção é mostrar que essa expressão considerada vandalismo, feia e suja, pode ser bela e poética; e que a beleza está no olhar de quem tem a capacidade de ver vidas, mistérios e histórias nos muros. “Muro branco é cidade sem voz” diz uma pichação que define esse pensamento.
 
Andy Warhol dissenos anos 80 que: "A coisa mais bonita em Tóquio é o McDonald's. A coisa mais bonita em Florença é o McDonald's. Pequim e Moscou ainda não tem nada que seja bonito". Na minha opinião o que define civilização, no sentido de metrópole desenvolvida, visualmente falando, são as pichações dos muros. Uma cidade de muros brancos não tem nada que seja bonito. Não tem voz. E foi viajando por essas grandes capitais que criei esse vocabulário para minhas obras. Madrid, Paris, Buenos Aires, São Paulo, Lisboa e principalmente Londres de onde nasceu todo um caderno com estudos para essa exposição.
 
Muitos pichadores se referem a prática como o esporte da periferia. São os escaladores, montanhistas da cidade que arriscam a vida para deixar sua “bandeira” demarcando um território no cume dos prédios. Verdadeiros heróis que arriscam suas vidas para não passar nesse mundo como um muro em branco.
 
A pichação, orgânica e analógica, amolece a arquitetura mecânica e digital da cidade. Gera contraste se fundindo a paisagem urbana e transforma tudo em dança.
 
"A cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada".
 
"A forma de luta difere da violência fi´sica das gangues urbanas, pois,
nos grupos do piche e do grafite, ela se reduz a uma violência simbólica
e provocativa. “Um terrorismo visual”
Márcia Tiburi. Pensamento PiXação.
Para questionar a estética da fachada.
Revista Cult nº 135
 
"No contato com o outro e no julgamento da cultura alheia
o viajante constrói a si mesmo"
Mary Anne Junqueira. Cadernos de Seminários de Pesquisa.
 
"Com a cultura de outros povos, o viajante constrói a si mesmo.
Cada sociedade humana conhecida é um espelho onde nossa
própria existência se reflete."
Roberto da Matta. Relativizando: uma introdução à antropologia social.
 
"O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas:
a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e,
enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de
registrar os nomes com os quais ela define a sí própria e todas as suas partes."
 
"Cada cidade recebe a forma do deserto que se opõe."
Italo Calvino. Cidades Invisíveis
 
“O dia a dia do homem contemporâneo não contem quase nada que seja ainda
traduzível em experiência: nem a leitura do jornal, tão rica em notícias do que lhe
diz respeito a uma distância insuperável; nem os minutos que passa, preso ao volante, em um engarrafamento; nem a viagem as regiões ínferas nos vagões do metrô. O homem moderno
volta para casa, a` noitinha, extenuado por uma confusão de eventos - divertidos ou maçantes,
banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes, entretanto nenhum deles se tornou experiência."
Georges Didi- Humberman. Sobrevivência dos Vaga-Lumes.
 
"Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas
e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.
Art. 65. Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa."
Lei nº 9.605 de 12 de Fevereiro de 1998
 
 
Bruno Vilela
 
 
 
 
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